Acabei de recordar uma conversa que tive há pouco sobre por que alguns investidores se obsessio­nam com certos números que a maioria ignora. Resulta que há um conceito que muitos passam por alto ao analisar ações: o valor patrimonial contábil. Não é o mesmo que o valor nominal, embora pareça semelhante. Enquanto o nominal se fixa no momento da emissão e considera apenas o capital social, o valor patrimonial contábil é mais vivo, mais atual. Reflete os recursos próprios da empresa em qualquer momento de sua vida, considerando capital mais reservas. É o que alguns chamam de valor em livros, e acredite, é fundamental se praticas investimento em valor.



A diferença entre o preço de mercado e esse valor em livros é fascinante. O mercado não só avalia o intrínseco de uma empresa, como também se deixa levar por sentimentos, expectativas, modas de setores. Por isso, vês casos onde uma ação cotiza a 34 euros, mas seu valor patrimonial contábil mal chega a 15. É aí que entra em jogo a relação P/VC, que simplesmente divide o preço pelo valor patrimonial por ação. Se der mais de 1, está cara em relação aos livros; se for menos de 1, está barata. Tomemos um exemplo: se uma empresa tem valor patrimonial de 26 euros por ação, mas cotiza a 84, sua P/VC é 3,23. Isso grita sobrevalorização. Em contrapartida, outra com 31 euros de valor patrimonial e 27 de cotação dá 0,87, indicando subvalorização relativa.

Agora, como se calcula realmente? É bastante direto: subtraímos os passivos dos ativos e dividimos pelo número de ações em circulação. Se uma empresa tem 3.200 milhões em ativos, 620 milhões em passivos e 12 milhões de ações, o valor patrimonial por ação seria aproximadamente 215 euros. As empresas cotadas publicam esses números regularmente, portanto, não é difícil obtê-los.

Mas aqui vem o que importa: esse indicador tem limitações sérias. Não considera os ativos intangíveis, o que é especialmente problemático em tecnologia e software, onde o valor real está na propriedade intelectual, não em máquinas. Por isso, verás que empresas tecnológicas quase sempre têm P/VC altos, mas isso não significa que estejam sobrevalorizadas, apenas que a ferramenta não funciona igual para todos os setores. Além disso, o valor em livros depende muito de como o contador apresentou as contas. Existe o que chamam de contabilidade criativa, onde se inflacionam ativos ou se minimizam passivos, e de repente teus números estão completamente adulterados.

O caso do Bankia é instrutivo aqui. Em 2011 saiu a bolsa com um desconto de 60% em relação ao seu valor contábil. Parecia uma pechincha, mas depois veio o desastre: resultados nefastos que levaram à sua liquidação e absorção pelo CaixaBank em 2021. Isso demonstra que um valor patrimonial contábil baixo não garante nada sobre o futuro. Especialmente em small caps, empresas jovens com livros escassos, mas promessas futuras enormes, essa métrica quase não serve.

Na análise fundamental, que é onde realmente importa esse dado, o valor patrimonial contábil é uma peça a mais do quebra-cabeça, não a solução completa. Tens que olhar macroeconomia, setor, gestão, perspectivas de resultados. Uma ação barata em livros só é uma oportunidade real se fizeste a tarefa completa de pesquisa. Portanto, sim, conhecer o valor patrimonial contábil te dá uma perspectiva que outros ignoram, mas não o tornes teu único critério. É um respaldo, um indicador a mais entre muitos outros.
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