Acabo de ver como a Argentina volta a reviver aqueles momentos que preferiríamos esquecer. Ontem no Congresso foi praticamente um espelho do caos que vivemos há anos com a reforma previdenciária, só que desta vez o conflito girou em torno da reforma laboral. Pedras, balas de borracha, camiões de água e bombas molotov na Avenida Rivadávia. A violência eclipsou completamente o que deveria ter sido um debate sério de fundo.



O que preocupa não é só a cena de rua, mas o que ela representa para a governabilidade do país. O Governo está a tentar aproximar posições com governadores e a CGT para conseguir a aprovação, mas cada incidente assim enfraquece a capacidade de negociação política. E aqui vem o crucial: se esta reforma laboral não avançar, a governabilidade vai ainda mais à deriva e o resto das reformas estruturais que tem na calha simplesmente não vão prosperar.

O que muitos não veem é que o FMI e os mercados financeiros estão a observar isto de perto. Não se trata apenas de que a Argentina consiga fundos ou acumule reservas. Trata-se de quão previsível é o quadro normativo que o país pode oferecer. Um Governo que não consegue legislar perde credibilidade internacional, e isso tem um custo real em termos de investimento e confiança.

O oficialismo introduziu inúmeras mudanças no projeto original para poder avançar, o que mostra até onde está disposto a ceder para demonstrar que tem governabilidade. É quase uma questão de sobrevivência política para eles, especialmente após os resultados eleitorais recentes que fortaleceram os seus blocos. Se fracassarem agora, a mensagem que enviam é que não podem governar.

A verdadeira incógnita é se esta reforma laboral realmente vai romper com mais de uma década de estagnação no emprego privado registado. Porque sem isso, sem investimentos a chegar e sem crescimento económico, a governabilidade torna-se um conceito abstrato. Os trabalhadores continuam na informalidade, o ajustamento fiscal continua a reduzir o emprego público, e a inflação continua a ser um problema. Para um Governo que aspira a chegar a 2027 com possibilidades de reeleição, este é o primeiro teste. Se não o passar, o resto desmorona-se.
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