Assim que a Pantone já falou e nos diz que o branco será a cor que dominará 2026. Mas não qualquer branco: Cloud Dancer, esse branco cru, esponjoso, com toques de baunilha que parece saído do interior de um marshmallow. Honestamente, quando vi a previsão, pensei o mesmo que provavelmente muitos: Será que um tom acromático consegue captar o estado de espírito global?



Stephen Westland, professor de ciências da cor em Leeds, também não está convencido. Diz que isso é um truque para promover interesse comercial. E tem razão: há uma dúzia de preditores de tendências a escolher cores do ano, e quase nunca coincidem. A WGSN aposta no verde azulado, outros especialistas falam de tons terrosos. O interessante é que todas essas cores de tinta refletem algo real: buscamos serenidade em meio ao barulho.

O que me fascina é como as marcas de tintas transformaram os nomes em uma arte. Farrow & Ball nos presenteou com Dead Salmon, Elephant's Breath, Arsenic e Broccoli Brown. Benjamin Moore tem Nacho Cheese, Dunn-Edwards tem Dangerous Robot. Não são descrições literais da cor, mas atmosferas. Isso é o que vende: a sensação, não o pigmento.

Lee Eiseman, do Pantone Color Institute, insiste que Cloud Dancer expressa nossa aspiração a um futuro livre de toxinas e excessos. Num mundo saturado de hiperconectividade, o branco funciona como um pouso suave para mentes sobrecarregadas. Parece poético, mas há verdade nisso. A cor nos molda mais do que pensamos. Abrir as persianas e ver azul em vez de cinza muda a perspectiva. Escolher um suéter rosa em vez de preto diz algo sobre como nos sentimos.

A Pantone tem um exército de antropólogos da cor analisando cultura, moda, arte, cinema, viagens. Extraem inspiração de São Paulo, Tóquio, Londres, Nova York. Seus achados apontam para um mundo sobrecarregado por ruído constante buscando transição para a serenidade. Vivemos numa cultura de agitação. Com estímulos vindo de todos os lados, buscamos alívio. As cores de tinta tornam-se mais suaves, refletindo o desejo de simplicidade e autenticidade.

Então, que tons oferecem rota para a harmonia interior?

Cloud Dancer continua sendo protagonista: evoca nuvens brancas e fofas, induz amplitude. O branco é sinónimo de novos começos, página em branco antes de pintar. Funciona como refúgio visual, linho limpo a ondular. É atemporal, versátil com pastel, contraste perfeito para preto. Serve de suporte para tons mais vibrantes.

Mas o verde azulado também tem seu encanto. A WGSN defende-o como tom que reflete uma mentalidade centrada na terra. Essa cor marítima na interseção do verde e azul representa restauração e evasão. Gemma Riberti, da WGSN, diz que os tons azul-esverdeados ganharão protagonismo porque são relaxantes e fáceis de decorar. As pessoas procuram cores que envolvam o ambiente e criem conforto.

Os tons vermelhos terrosos continuam populares: berinjela, roxo, marrons. Ruth Mottershead, da Little Greene, afirma que são intensos, reconfortantes, ideais para ambientes relaxantes. Oferecem uma alternativa sofisticada aos marrons tradicionais. Seus tons sanguíneos combinam com notas de caramelo de materiais naturais.

Há uma tendência clara para o sóbrio. Ocre cinza combinado com branco calcário nos tetos permite que obras de arte e móveis se destaquem. A designer Venetia Rudebeck aconselha deixar que as texturas façam parte do trabalho. Há uma nostalgia discreta em paletas que atraem: cerâmica dos anos 70, bibliotecas antigas, tons campestres usados de forma moderna.

Cathryn Sanders, da Earthborn Paints, explica que criar um interior restaurador começa por definir o ambiente, depois aplicar camadas ascendentes: tom médio nas paredes, mais claro em cima, mais escuro na carpintaria. Espera-se um remate de cor onde os tetos usam uma relação mais clara. A combinação de acabamentos (paredes mate com carpintaria acetinada) aporta uma profundidade nova.

Pêssego, marrons suaves e creme estão ganhando terreno. Christian Bense diz que as cores de tinta são pano de fundo, não protagonistas. Misturar tons permite um estilo mais orgânico. Os neutros quentes reconfortam: tons de topo envolventes, neutros complexos de médios que trazem calor emocional sem sobrecarregar.

Azuis minerais pálidos ressoam entre os designers. Esses tons sentem-se profundamente conectados com a natureza, transmitindo tranquilidade. Paredes de azul mineral pálido com acentos verdes refletem o mundo natural.

Por fim, sálvia e jade continuam populares, inspirados em séculos de simbolismo: renovação primaveril, tons suaves de interiores georgianos. Birdie Fortescue percebe essa mudança na sua colaboração de pintura, inspirada em paisagens de Norfolk. São tons relaxantes que acentuam detalhes arquitetónicos frequentemente passados por alto.

Quer seja Cloud Dancer completo, Nacho Cheese ou a riqueza do granada, uma coisa está clara: a cor nunca é apenas decoração. É estado de espírito, recordação, toque de leveza. As cores de tinta que escolhemos contam quem somos.
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