Este é o corretor de imóveis mais implacável que já vi.


Na semana passada, acompanhei um amigo para ver uma casa, um bairro antigo, quinto andar, sem elevador.
O corretor era um senhor de mais de cinquenta anos, com cabelo branco, subindo as escadas mais ofegante do que nós.
Ele se apoiou na grade, dizendo que a casa era dele, não da empresa, e que iria se aposentar após vendê-la.
O amigo perguntou por que ele vendia, e ele disse que o filho estava no exterior, a esposa tinha falecido, a casa estava vazia demais, e era desconfortável morar lá.
Quando falou isso, ele estava na frente da janela, de costas para nós, com os ombros caídos, como se algo o tivesse pesado por muitos anos.
O amigo ficou comovido e quis assinar o contrato na hora.
Eu disse para esperar mais um pouco.
Na descida, o senhor foi o último, parando a cada andar, apoiando-se na parede, ofegante como um fole de bomba de ar.
Ele, respirando fundo, disse: “Vocês, jovens, podem ir na frente, eu vou devagar.”
O amigo quase chorou, dizendo: “Quero essa casa, não quero mais ver.”
Depois de fechar o negócio, fomos ao condomínio fazer a transferência.
A funcionária do condomínio olhou os registros e disse que a casa tinha sido transferida na mês passado.
Perguntei quem era o proprietário anterior.
Ela disse que era aquele senhor idoso.
Ele vendeu quatro apartamentos no ano passado, todos neste prédio, em andares diferentes, mas todos sem elevador.
Cada vez que vendia, dizia que era dele, que o filho estava no exterior, a esposa tinha falecido, e que a casa estava vazia demais.
Ele trocou de quatro andares diferentes nesta mesma construção, cada um com sua história de dificuldade para subir escadas.
A funcionária do condomínio disse que vocês eram o quinto comprador, e então pegou uma cópia do relatório de saúde que ele tinha deixado na administração.
No relatório, dizia que sua função cardíaca e pulmonar eram normais, sem alterações orgânicas, peso sem mudanças significativas no último ano, pressão arterial normal, e recomendava exercícios aeróbicos.
Ela dobrou o relatório e colocou na pasta, acrescentando: “Ele veio fazer a transferência da última vez reclamando de dor nas costas, mas subiu cinco andares de uma só vez, sem parar, mais rápido que vocês.”
O amigo estava na frente da janela do condomínio, segurando a chave nova, e perguntou se a cena do “senhor idoso que não consegue subir escadas, mas que de um passo pulou cinco andares” era real.
Eu disse que sim, que ele não veio hoje, talvez já esteja do outro lado do prédio sem elevador, ajustando a respiração, pronto para começar a subir mais escadas.
Ele ainda tem quatro contratos do mesmo tipo de apartamento na sua bagagem, cada um com a mesma história de esforço ao subir as escadas.
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